sábado, 18 de maio de 2019

Cantiga para o menino morto

Não é concha, nem sargaço,
nem flores de Iemanjá.
É o corpo de um menino
que veio lá do alto mar.

É o malogro de um sonho.   
O alento de esperança     
que as águas sufocaram     
junto com aquela criança.
  
Os pais fugiam da guerra
E ali agora ele jaz
todo vestido, no sono
de uma indesejável paz.  

A paz da vida cortada
bem antes de florescer.  
Do futuro que se nega    
a quem queria viver.                
  
No colchão da praia erma
repousa o corpo de Aylan
como um brinquedo quebrado
-- sem ontem, sem amanhã.
            
A história desse menino
(não há como duvidar)     
é das histórias mais tristes
que se contam sobre o mar.

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